11/02/2012

IDEIAS ADQUIRIDAS EM HUME


Com o exemplo das cores, Hume pretende propor que existe um caso em que as ideias podem ser concebidas não por derivação de uma impressão, mas como derivação da indução da analise de ideias opostas impostas ao ser que percebe, apresentando-se como uma contradição ao principio da cópia. Para tanto é necessário investigar os três sentidos de ideia que aparecem no texto, a saber: ideia interna, ideia externa e ideia relativa.

Quando pensamos nas impressões e ideias em Hume, pensamos nas suas relações para que com as coisas percebidas. Sabemos que quanto ao grau de vividez e de força as ideias possuem um grau menor que a impressão, pois elas são concebidas como copias das impressões. Assim, por exemplo: quando uma pessoa sofre um acidente de carro ela vai sentir com muita intensidade o cheiro da gasolina, a dor no seu corpo, o suor no rosto por causa do nervosismo acarretado do susto que recebeu com o acidente, a imagem do acidente é muita mais chocante naquele momento. Agora imaginemos essa mesma pessoa contando do acidente para as outras pessoas. Ela vai se lembrar da imagem daquele dado momento. Ela até pode descrever como aquilo foi fielmente, mas a lembrança do uso dos sentidos daquele momento vai ser a única coisa que vai lhe restar, e não poderia naquele momento reproduzir a experiência vivida. Ou seja, quando falamos em cheiro de gasolina, vem a nossa mente a lembrança do cheiro da gasolina e não o cheiro em si, o que confere que a ideia de cheiro de gasolina não passa de uma “imagem” da impressão, ou uma cópia daquela determinada impressão sentida em um momento distinto.

Como podemos ver, no exemplo acima exposto, a ideia é uma copia e produto da impressão. Dizer isso é afirmar que se ela for um produto ela não poderia originar de modo algum alguma outra ideia, e de certo modo é isso que vai acontecer. Antes de tudo devemos notar que aparecem três sentidos distintos de ideias, a saber: 

a)  Ideia interna: é a ideia formada a partir das impressões que o indivíduo obtém da experiência;   
b) Ideia externa: é aquela ideia formada a partir da linguagem, ou seja, é um conceito que pode ser usado para descrever uma ideia entendida entre as pessoas usuárias de certa linguagem. Deste modo um cego consegue definir o que seja maçã, mesmo não tendo a ideia clara de como uma maçã especial seja;
c) Ideia relativa: é quando há certa comparação propriamente dita entre duas ideias distintas, em que pela indução temos uma ideia intermediaria e relativa do terceiro elemento.

Tomando estes três tipos de ideias, pensemos então na situação que Hume expõe no paragrafo oito da Investigação Acerca do Conhecimento Humano. A primeira ideia que percebemos no ser humano é a interna que é formada pelo ser que percebe. Ou seja, a ideia de azul que este ser possui é formada a partir de impressões distintas que formam ideias distintas da cor azul, a saber, a ideia de suas tonalidades. No segundo momento temos o preceito de tal ideia sendo apresentado pela linguagem. Assim uma pessoa que seja ex-vidente, agora cega, consegue imaginar algum tom de azul qualquer, porque a sua linguagem corresponde àquelas tonalidades de cores denominadas azuis. Assim quando falamos que passou um fusca azul ela pode pensar numa tonalidade desta cor que não corresponde a real e por isso a sua ideia na será perfeitamente idêntica a impressão de seu conhecido (neste caso devemos relevar que a impressão não corresponde a ideia formada, pois o sujeito que forma a ideia não é o mesmo que possui a impressão derivada da experiencia). No caso da ideia relativa podemos pensar como no exemplo que Hume expõe:

                      “Colocai todos os diferentes matizes daquela cor, exceto aquele único que ela não conhece, em sua frente, decrescendo gradualmente, do mais escuro ao mais claro. Certamente ela perceberá onde falta este matiz, terá o sentimento de que há uma grande distância naquele lugar entre as cores contíguas, mais do que em qualquer outro.”

Nesse excerto Hume tenta demonstrar que a pessoa pode sim conceber uma ideia a partir de dedução de outras duas ideias. O caso da cor é o único caso propicio para isso por permitir que a pessoa compare e perceba que existe um tom entre dois outros tons, que deveria estar ali, concebendo uma ideia daquele tom. Por esse motivo que Hume não muda a tese geral, porque aquela exceção não poderia virar regra tendo em vista que a relação entre ideias e impressões se dão de dada forma e não de outra. Finalmente, o modo como as pessoas adquirem o conhecimento para Hume é aquele exposto anteriormente.

10/08/2012

ANÁLISE SOBRE OS DOIS PREFÁCIOS DA" CRÍTICA DA RAZÃO PURA"



Essa breve reflexão terá por intento apresentar, comparar e analisar o que os prefácios convergem quanto ao objeto de estudo da Crítica da Razão Pura. Pontos relevantes serão apresentados tentando explanar o como ambas ajudam a entender a verdadeira proposta da obra em questão, que é a analise da relação entre coisa conhecida, e ser que obtém conhecimento.

O primeiro prefácio da Crítica da Razão Pura apresenta certa preocupação na organização e manutenção da metafisica como ciência viável, afirmando a diferença entre questões que podem ser respondidas e as questões que não podem ser respondidas em AVII. Em A VIII justifica afirmando que essas questões fazem com que a razão humana “caia em obscuridades”. Se acaso esse problema de fato persistisse, poderíamos testemunhar certa indefinição no que seja realmente a metafísica em seu exercício pleno. Poderíamos dizer, assim que o objeto da metafisica seriam obscuridades que o intelecto humano não poderia resolver, por primeiro gerar ambiguidade na definição de termos, e segundo lugar, por não respeitar princípios lógicos básicos, como por ex.: o principio de não contradição, sendo assim as resoluções de tais problemas impossíveis. Para Kant o problema estava em conceber este tipo de questão fazendo parte da metafisica, e por isso era preciso delimitar o objeto de estudo da metafisica. Ou seja, era preciso entender como a razão poderia ser utilizada para se obter um conhecimento verdadeiro das coisas. Por esse motivo era preciso delimitar os limites da razão, sendo este o papel do “tribunal da razão” entendido em A XI. Esse tribunal tem como objetivo maior assegurar que a razão seja realmente entendida como parte do processo cognitivo e como as coisas podem estar funcionando

Em A XII podemos notar que a razão em si não poderia ser baseada em experimentações por possuir uma base frágil para o entendimento das coisas. Isto é, Kant dá indícios de que existe algo a mais no processo de conhecimento das coisas. O segundo prefácio apresenta a ideia de “revolução copernicana”, cujo entendimento das coisas pode ser obtido a partir da formação de juízos sintéticos a priori. É um sistema metafisico proposto por Kant onde o que deveria ser avaliado não são os conceitos que determinam certa coisa sendo tal “x” mas sim, deveríamos possuir um conhecimento a priori dela. Podemos notar que a ideia principal no caso do prefácio dois, é de fugir da base empírica na metafisica, como propõe Torretti, deixando de compara-la com outra ciência qualquer, pois não só o empirismo faz parte do processo de obtenção de conhecimento, mas também a analise racional da ideia de objeto e a sua relação com o ser que percebe. Assim em contrapartida a Locke, Kant propõe uma metafisica baseada em um eixo principal: a análise da relação entre coisa percebida e ser que percebe.

Assim sendo "alterar o método que a metafísica até agora seguiu, operando assim nela uma revolução completa, segundo o exemplo dos geômetras e dos físicos" vai ser o principal objetivo da metafisica.  A analogia apresentada neste excerto se refere a algo que pode ser explicado a priori e constatado a posteriori. Ou seja, está propondo um sistema misto, denominado juízo sintético a priori. O juízo a priori pode ser dividido em dois o a priori e o a priori puro. No primeiro caso podemos ter o juízo a priori de que, por exemplo: se alguém se jogar do abismo morrerá. Ou seja, a partir de dados empíricos eu formulei tal juízo, uma universalidade. Já o conhecimento a priori puro é aquele conhecimento que independe da constatação empírica. Ou seja, é o caso dos geômetras e é a esse tipo de conhecimento que Kant se refere no excerto.  Quanto a aplicabilidade podemos pensar no seguinte exemplo: o engenheiro vai construir num barranco uma casa; para que a casa não desmorone, ele precisa fazer com que a terra permaneça estável. O modo de se resolver isso é manter o barranco em uma angulação de 45°. Para isso ele precisa fazer o calculo para poder aplicar tal conhecimento na sua construção e garantir que a casa não caia. Ou seja, é um conhecimento tido anteriormente por abstração e posteriormente usado para este fim. Podemos notar que tal conhecimento geométrico é extensivo e possui certa relação. Portanto estamos falando de juízos sintéticos a priori.

 Outro exemplo de juízo a priori é o de Copérnico: que trata justamente dessa concepção, onde os objetos são tratados em relação com o ser que os percebe.  O problema que Copérnico tinha para conseguir mostrar o porquê que Marte fazia uma volta totalmente diferenciada em relação à  terra, é um exemplo que mostra a relação entre os conhecimentos a priori e a posteriori (como sendo partes do conhecimento). No momento que temos um cálculo que diz que a rota que marte deveria seguir era X, enquanto que na observação empírica constatava-se que a rota tomada na realidade era Y constatou-se a possibilidade de que algo não estava sendo levado em consideração: o posicionamento da Terra. Quando colocou a Terra em uma posição fora do centro, Copérnico percebeu que não se tratava de erro de cálculo e sim de um erro posicional, por ter constatado nos novos cálculos. Isso quer dizer que o ponto-de-vista da observação poderia estar errado porque a contraprova mostrava isso. Assim sendo, era preciso muito mais que a observação e sim uma base racional para provar o que realmente acontecia no céu.

Concluo afirmando que ambos os prefácios se complementam e juntos conseguem demonstrar perfeitamente o intuito da critica da razão pura. Isto é mostrar que o verdadeiro objeto de estudo não é a coisa percebida, como sendo um objeto conhecido por meio dos sentidos puramente e sim a relação entre conhecimento empírico e racional que podemos ter com as coisas conhecidas. A analogia feita com os geômetras e a proposta da revolução copernicana na filosofia, nada mais são que pontos correspondentes da mesma teoria e que procuram responder o como se dá a possibilidade de formular juízos sintéticos a priori, buscando de certo modo uma  nova significação da metafisica.

6/30/2012

"BLADE RUNNER" E O PROBLEMA DAS OUTRAS MENTES


O problema da existência de outras mentes está relacionada com a ideia de ceticismo quanto a existência de um corpo vinculado a uma mente, pois uma vez aceita tal ideia, podemos nos perguntar se essa relação também ocorre com outros sujeitos que percebemos a sua existência. O filme “Blade Runner”, a meu ver, tenta discutir melhor essa ideia na figura dos androides, uma vez que eles aparentam sentir algo por outros androides, ou quando que possuem vontades e sentimentos humanos. Assim podemos nos perguntar se a relação mente e corpo se dá de que modo nos outros seres: É uma tentativa de explicar a possibilidade de interação entre mente e corpo, onde o pressuposto básico não estaria ligado somente a minha mente, e sim a ideia de existência de mentes e corpos que não sejam os meus, por exemplo.

O que podemos destacar, em primeiro momento é como podemos entender as coisas que percebemos. Se formos um tanto coerentes com o nosso mundo sensitivo, e assumimos sua existência, dizemos que conhecemos através de experiências sensíveis, e que tudo o que sentimos ou pensamos possuem certa relação de causa e efeito com as coisas mundanas. Exemplo: a visão. Quando enxergamos um ônibus desgovernado vindo em nossa direção, a reação que temos naquele instante é de sair do caminho dele, buscando a conservação da vida. Ou seja, utilizamos o nosso aparato perceptual, fazemos uma leitura da situação com a nossa mente, e concluímos que se continuarmos parados no mesmo lugar seremos atropelados e perderemos a vida corporal. Podemos notar, portanto, que com as sensações que sentimos através do nosso aparato perceptual buscamos de certa forma, analisar a situação, e o fazemos através da mente. Agora, podemos supor dai que qualquer outra pessoa faria o mesmo tipo de relação mental? Agora pensemos no caso de uma pessoa cega. Ela possui sentidos ela não enxerga o ônibus vindo em sua direção, porem ouve. Ao ouvir o ônibus o cego não sabe que este passará por cima de si ao se aproximar. Ou seja, a pessoa não fará a mesma relação mental que a outra pessoa fez. A relação que ela faz com a mente e o corpo é totalmente diferenciada daquela feita por uma pessoa vidente. Mas se pudesse enxergar provavelmente teria salvado sua própria vida.

Pensemos agora no caso dos mutantes e dos mortos-vivos. O que Blackburn pretendia ao mostrar a possibilidade de existência dessas duas subespécies é que esses dois grupos poderiam aparentar ser seres humanos, ao passo que não eram, pois possuíam todas as características que os definiam como tal. Assim poderíamos nos perguntar o que serve como pressuposto inicial para que possamos afirmar a relação entre mente corpo. A existência ou não de consciência era o ponto principal da discussão. Se assumíssemos que os mortos-vivos não tivessem consciência, como poderíamos explicar as reações que possuíam quando fossem machucados. Deste modo podemos nos perguntar se há a possibilidade de existir seres que possuem esta relação e se é algo exclusivo do ser humano.

O filme Blade Runner aborda bem este questionamento. A história toda se passa na Los Angeles de 2019, em que a ciência estava tão avançada a ponto de ser viável a produção de androides. Esses androides foram criados com o objetivo básico de servir aos seres humanos para os mais diversos fins, mas a humanidade não os queria mais e resolveu descarta-los por diversos motivos. Harrison Ford faz o papel do caçador de androides Rick Deckard, que consegue identifica-los e os liquida. Mas em determinado momento coisas estranhas vão ocorrendo com Rick e com os androides aos quais ele vai se envolvendo ao decorrer do filme. A androide Pris é um exemplo: parece que ela aprende a desenvolver sentimentos humanos quando que mostra interesse por Rick e acaba se apaixonando por ele. Também no momento quando ela começa a pensar até que ponto consegue pensar, ou se tudo o que ela aprendeu (ou acha que aprendeu) não passam de programas implantados no seu chip. O que podemos notar é que o 
questionamento anteriormente feito pode ser respondido de modo afirmativo. Outro androide, o Roy, sugere isso. Ele tinha o desejo de viver o máximo de tempo possível, e acreditava que aquele não era o momento de sua partida. Ele queria continuar vivo a todo o custo. Para tanto foi procurar o seu criador e pediu que essa o ajudasse no seu intento. Chegando lá, o seu criador lhe disse que isso era impossível de ser feito. Por isso Roy mata-o em excesso de fúria.

O comportamento de Roy durante o filme é muito interessante. Parece que ele vai deixando de ser máquina e vai virando humano. Podemos notar que isso ocorre quando percebe a morte de sua companheira. Ele sente a morte dela, e por esse motivo também tenta matar Rick. Deste modo podemos perceber que há a possibilidade de uma coisa que não seja humana fazer relações com as coisas

6/09/2012

REFLEXÕES SOBRE O IDEALISMO DE BERKELY




A TESE IDEALISTA DE BERKELEY

George Berkeley mostra as suas verdadeiras intenções quando que inicia o tratado sobre o conhecimento humano. Pretende encontrar a verdade fugindo do senso comum sem cair em certo grau de ceticismo (que é caracterizado por ele como sendo a obscuridade das coisas). Quando isso acontece, afirma que o espírito humano tenta participar da infinidade das coisas se esquecendo de sua finitude. Deste modo podemos identificar, em primeiro lugar, que há certo conhecimento mediante as possibilidades de se conhecer, e em segundo lugar, vemos as restrições quanto ao uso das faculdades cognitivas, ou seja, só podemos utilizá-las para conhecer coisas finitas. Aparece aqui o modo de conhecimento utilizado no tratado: conhecemos por similitude, ou seja, similar conhece similar. No momento que estabelecemos isso estamos, em última análise, afirmando que as coisas finitas podem ser conhecidas por nós, por termos a mesma característica.

A investigação ocorrerá na tentativa de encontrar o modo como o conhecimento se configura para nós e como ele vai ser adquirido. Assim estabelece um ponto muito importante para a organização do tratado onde a linguagem demonstraria a capacidade do ser humano de construir ideias abstratas, e resolver questões que não estão presentes no espirito humano. Parece que Berkeley tenta estabelecer a distinção entre questões possíveis e impossíveis de serem resolvidas pelo ser humano, e dentro das questões possíveis estabelece outra distinção acerca das qualidades destas, onde elas poderiam ser classificadas como abstratas (o conhecimento se dá através da linguagem, mais precisamente a lógica como forma de estabelecer certas ligações entre as ideias abstratas, e a metafisica que vai tratar dos questionamentos das coisas que estão além das coisas físicas, porém o nosso intelecto consegue conceber, ou procurar certas ligações, por se tratar de questionamentos que não implicam as concepções de finitude ou infinidade para serem resolvidas,) ou não abstratas (são aquelas coisas físicas que o espírito humano conseguiria compreender muito bem através do uso dos sentidos somente).  No caso das coisas não abstratas, podemos ver que quando utilizamos do nosso aparato perceptual para distinguir uma pessoa da outra, por exemplo, utilizamos as características que qualificam este ser em grupo. Quando as pessoas descrevem, por exemplo: a Vera Fischer, uma mulher alta, cabelos loiros e longos, pele bronzeada, olhos verdes, silhueta definida, etc. a caracterizamos a partir de um grupo de qualidades. O espírito humano consegue conceber tranquilamente a imagem mental, ou até consegue identificar a pessoa como sendo uma e não outra.

O modo como abstraímos e chegamos à concepção de uma característica particular é o que vai nos permitir determinar o que seja uma mulher no geral (se é que podemos utilizar tal termo). Isto é, quando generalizamos uma ideia, estamos em última análise considerando que ela vai servir para definir algo que se apresente no interior de dado conjunto quando sendo esta coisa em particular, porém apresentando a ideia geral de ser algo, não fora do corpo, mas sim a ideia daquilo em si. Tomando como exemplo, ainda a Vera Fischer, podemos ver que a ideia particular que fazemos da pessoa Vera Fischer pode se tornar uma generalização da ideia de mulher a partir da análise de que o que a torna mulher e o que ela tem em comum com outras mulheres. E é a partir dessas características que o grupo de mulheres é estabelecido, e não chamado por outro grupo. Para tanto, é preciso estabelecer o que são essas características em geral que tornam um ser mulher e não outra coisa.

 Outro exemplo que melhor se adequa a situação e aparece no corpo do tratado é a questão da cor: um corpo qualquer possui certa coloração. No instante que analisamos queremos estipulá-la como sendo pertencente a algo em particular. Assim quando apontamos para algo e afirmamos que este algo tem coloração tal, estamos fazendo associação com a ideia abstrata de cores que temos e estipulamos a partir da ideia de uma cor em particular. Ou seja, conseguimos dizer que verde é um verde específico, pois no nosso espirito catalogamos, de certa forma, tudo o que for verde, depois tudo o que for cor, para termos certa concepção de cor no geral. Assim conseguimos especificar a cor do objeto cadeira: dizemos que ela é verde porque possui aquela cor particular que o nosso espirito consegue comparar com as outras cores e por ultimo concebe a ideia geral de cor.

Para resolver de uma vez por todas os impasses que sua teoria poderia causar, Berkeley procura mostrar que a capacidade de abstrair as coisas no geral deve levar em consideração esses dois aspectos importantes que consistem:
a)     Abstraímos qualidades das coisas que estão em certo grupo. Para conseguirmos tal intento precisamos considera-las fora do feixe de ideias que configuram a coisa;
b)     Abstraímos estas ideias tendo consciência de que elas se apresentam dependentes da ideia de algo (elas só existem dentro deste sistema).

Assim deste modo o que tomamos como triangulo no geral não seria um triangulo específico e sim as características que generalizam a ideia de triângulo: uma figura geométrica, que possui três ângulos e três lados. Assim podemos ver sobressair as características que definem um triangulo no geral a partir de características particulares dos elementos que estão inseridos no grupo dos triângulos, porém inseridos dentro de uma ideia de um corpo complexo, em que tais características não poderiam ser encontradas fora de um corpo: são os casos do ângulo e da extensão. Assim as ideias particulares de triângulo isósceles, triângulo escaleno, triângulo retângulo e triângulo equilátero, possuindo as qualidades em comum: três ângulos e três extensões na formação da ideia da figura.


ASPECTOS DA TESE REALISTA REFUTADOS POR BERKELEY

Os realistas aceitam como Berkeley que as ideias existem para um sujeito, porém existe algo que não é ideia existindo para além da percepção sendo similares a ideias. O parágrafo quatro do corpo do tratado mostra um aspecto importante da tese realista: as coisas podem existir mesmo quando não são percebidas, logo as coisas poderiam existir sem um ser que percebe. O parágrafo cinco possui a finalidade de desmontar essa tese realista, afirmando que é impossível abstrair as qualidades dos objetos que não conhecemos. Se aceitarmos Berkeley, com sua teoria de que as coisas deveriam ser percebidas para existirem, estamos afirmando que as coisas são feixes de ideia. Agora se aceitarmos a teoria realista, podemos cair em outro problema: a relação entre incomparáveis (ex. inodoro e odoro). A percepção para Berkeley teria o papel de garantir a existência da coisa. Assim se algo não é percebido, não vai existir. Com esta afirmação realista, levanta outra questão, quanto à substancialidade da coisa. Isso suscita outro problema: parece que estaríamos percebendo a coisa fora dela mesma. Ou seja, não estaríamos usando os sentidos para conhecer a coisa, estaríamos tratando-a como sendo algo que não ela mesma e que ela enquanto coisa poderia ser percebida sob aspectos diferenciados, ora como coisa perceptível, ora como outra coisa não perceptível, ferindo, portanto, o principio de não contradição. Berkeley afirmava que estaríamos tratando a coisa como não sendo ela mesma.

 Outra questão que Berkeley aponta no seu tratado é o problema de afirmarmos que a matéria poderia ser uma substância não sensível. No parágrafo nove são diferenciadas as qualidades primárias (extensão, forma, movimento, repouso, solidez e número) existentes na matéria das coisas, das qualidades secundárias (cor, som e sabor) percebidas através dos sentidos. Berkeley desmonta a teoria da seguinte forma:
P1. A matéria seria uma substância inerte não sensível e possui as qualidades primárias subsistindo em si.
P2. As qualidades primárias existem dentro do espírito humano e são ideias.
P3. Ideia assemelha-se à outra ideia; a relação de semelhança só pode se dar entre ideias.
CL1. Como a ideia é composta pelo espírito, só poderia ser produzida por algo não inerte, pois estamos tratando em primeiro: de algo que percebe; em segundo: como matéria é algo percebido, logo deve ter alguma outra coisa que a percebe.
CL2. Se algo é percebido, então deve ser composto por um feixe de ideias, que forma a ideia daquela coisa, e não as suas qualidades primárias por si só.

Assim sendo podemos notar que a coisa sensível é formada por feixe de ideias (que é a percepção frequente de um conjunto de ideias que compõem uma ideia em particular), que são oriundas de percepções particulares, onde deve existir um espírito que as percebe. Se não for percebido por um sujeito (pelo espírito do sujeito) deve ser percebido por um espírito divino, pois assim garante a existência das coisas e deste modo refuta a tese realista respondendo a seguinte pergunta: O que garantiria a existência da coisa quando que não é percebida por um ser que percebe? 

4/18/2012

COMENTÁRIO ÀS SEÇÕES III E IV DE INVESTIGAÇÃO SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO E SOBRE OS PRINCIPIOS DA MORAL DE DAVID HUME


No inicio da seção três Hume assume a existência de um principio que conecta os pensamentos e ideias, que seria causa do entendimento das coisas, em que os pensamentos arbitrários seriam, ora excluídos – por não possuírem ligação com o conteúdo da ideia –, ora aceitos desde que mostradas sob quais circunstâncias tal ideia se contatou com o restante do pensamento (Poderíamos até pensar que a mente humana agiria como filtro de conteúdos, porém essa discussão não faz parte do pensamento do filósofo). Para justificar tal asserção Hume exemplifica o fato expondo as questões do sonho e o do diálogo entre pessoas. No caso do sonho temos uma situação ocorrendo em decorrência de outra. Poderíamos até dizer que se trata de uma relação causal, onde teríamos uma ocorrência de eventos interligados entre si ocasionando um evento. Também poderíamos dizer que o nosso cérebro estaria relacionando coisas congruamente (poderíamos nos remeter a ideia de causa e efeito?), onde os nossos cérebros associariam coisas que possuem em comum certa utilidade, ou ocupam mesmo espaço, ou possuem certa propriedade em comum, etc. O caso da conversa é um pouco mais delicado. Podemos estar conversando normalmente com uma pessoa sobre política partidária, e repentinamente surgir certa discussão sobre o melhor corte de cabelo. Mesmo se isso acontecesse, notaríamos que há relação entre pensamentos. A pessoa que inseriu o assunto no meio da conversa sobre política, poderia muito bem ter comentado o quão lindos são os cabelos de uma mulher que participa ativamente do ambiente, e os cabelos dela por serem espetaculares acabaram entrando no meio da conversa. Pode ocorrer também que o assunto não se desvirtue, onde uma das partes atuantes na conversa retome o assunto principal e não dê grade atenção ao assunto adjacente.

Hume afirmava que essas conexões possuíam três princípios, a saber: semelhança, contiguidade e causa e efeito. A semelhança exemplificava com a similitude entre um retrato e a pessoa. Já a contiguidade, por sua vez, utiliza como exemplo o cômodo da casa que remeteria ao ambiente casa. E por último, como exemplo de causa e efeito, utiliza o machucado onde este seria a causa da dor. A maneira pela qual Hume tenta garantir a usabilidade de tais conceitos é a partir do uso de exemplos. Para tanto precisa mostrar que “essa enumeração é completa”, ou seja, “que não há outro princípio de enumeração além desse”. Por isso a utilização de exemplos se torna fundamental para que consigamos generalizar a situação e podermos dizer que tais princípios são legítimos e podem ser usados nos casos de conversa ou sonho como anteriormente exposto. 

Hume viu a necessidade de analisar esses efeitos nas paixões e na imaginação. Utilizando o sentido de paixão afetar-se, notemos que de certa forma as ações humanas se direcionam para algum fim (não é de vã vontade que o homem age). Assim sendo, utiliza o caso da literatura. O intento de um escritor quando redige sua obra, nada mais é que manter a atenção do leitor. Por isso vê-se a necessidade de se manter certa coesão, ou certa linha de raciocínio precisa. O modo ao qual buscamos isso pode diferir e muito quando que utilizamos os princípios. Num poema, como o próprio Hume aponta, pode ser usado o principio da similitude. No caso da história podemos notar que os fatos podem ocorrer em certo espaço em determinado tempo. Reutilizando o exemplo da história, Hume demonstra que esta possui várias cadeias causais. No caso do poema épico podemos ver a partir de detalhes descritos pelo o autor, a ideia que ele quer passar ao escrever a sua obra. Podemos imaginar que tais paixões, geraram tais atos, e por consequência geraram tais guerras. As imagens conseguem se formar com maior facilidade na mente humana. Isso só é possível porque a cadeia de eventos ao qual submetemos as ações que se relacionam entre si, são muito bem descritas, portanto a imaginação se torna viável. Ao passo que uma narrativa histórica, por exemplo, mesmo sendo fiel aos fatos se torna menos fácil o entendimento tendo em vista a pouca descrição dos fatos.

A primeira parte da seção IV, inicia com a distinção entre relações de ideias e questões de fato. Isso tudo permeia o universo da investigação humana. No primeiro temos tudo o que corresponde a relações matemáticas, onde tais afirmações estão corretas e podem ser comprovadas através de demonstração. Hume se vale do exemplo do triangulo retângulo, onde o quadrado da soma dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, expressando certa relação entre as partes expostas na demonstração. Já no caso da questão de fato, vemos que saberemos algo quando que da sua ocorrência, sendo totalmente diferente das relações de ideias. O exemplo exposto pelo autor é que só poderíamos ter certeza de que o sol vai nascer no dia seguinte no momento em que ele aparecer no céu. Interpreto que poderíamos pensar na possibilidade de ocorrência deste fato específico, porque no momento que olhamos para o céu poderíamos não encontrar sinal de nuvens e concluir que o sol nasceria no dia seguinte.

Mais adiante, o autor afirma que as questões de fato “parecem fundar-se na relação de causa e efeito”. Quando utilizamos o exemplo do sol, pensamos que a causa de seu surgimento nada mais é que a não existência de nuvens, logo seria essa a causa do surgimento do sol. Outro exemplo que Hume expõe em seu texto, é o do relógio encontrado em uma ilha deserta, em que o individuo que o encontra, acaba concluindo por inferência que outros homens estiveram nesse mesmo lugar, porque deve ter existido um agente que trouxe o objeto até aquela ilha e o deixou lá. Logo, a causa do relógio encontrar-se na ilha é a passagem de um homem pelo local. As relações estabelecidas nesses exemplos possuem certa característica em comum: o fato de o antecessor garantir o fato posterior.
Os exemplos acima nos causam a falsa impressão de que se conhecemos a causa, saberemos o que ocorrerá posteriormente. A ação do hábito nos faz crer que o conhecimento das coisas se dá de modo à priori. Isso implica afirmar que dadas as ações, inferimos que tal coisa é, porque conferiria o resultado. Tomemos como exemplo o caso do atropelamento. Dizemos que uma pessoa vai quebrar o braço se for atropelada, porém ela quebra a perna. A causa foi a mesma, porém o resultado é diferenciado. O mesmo ocorre com o exemplo das bolas de bilhar, pois no momento que impulsionamos a bola de bilhar em direção à outra, não quer dizer que a primeira acerte a segunda bola e marque um ponto. Ela pode desviar, sendo assim o efeito diferente daquele desejado pelo jogador. 

Notemos que agora podemos entender o que Hume afirma no começo do paragrafo 11 da seção quatro quando afirma que “todo o efeito é um acontecimento distinto de sua causa. Ele não poderia ser descoberto na causa, e a sua percepção e compreensão a priori deve ser inteiramente arbitrária”. Quando usei o exemplo do atropelamento, estava simplesmente usando a impressão que um indivíduo poderia ter quando outra pessoa fosse atropelada. O mesmo acontece com a impressão que uma pessoa teria da bola de bilhar. Assim sendo podemos notar que o conhecimento que ela tem, não passa de inferência sobre aquilo que poderá acontecer, dado acontecimento inicial.

O resultado disso tudo é que nos baseamos nas nossas experiências para inferir que outras coisas que possuem mesmo formato ou qualidades, irão desempenhar o mesmo papel. O Exemplo utilizado por Hume é o pão. Se comermos um pão qualquer e dizemos que este satisfez as necessidades nutricionais em dado momento, então tudo o que tiver a mesma consistência, o mesmo formato e as mesmas propriedades poderão satisfazer (de maneira análoga ao primeiro) as necessidades nutricionais em outro momento. Como poderíamos garantir isso? Na verdade não podemos responder, e nem é nisso que Hume vai se ativer neste momento. Mas aponta o seguinte raciocínio: “Constatei que tal objeto sempre esteve acompanhado de tal efeito e prevejo que outros objetos de aparência semelhante, estarão acompanhados de efeitos semelhantes”. E é com base na experiência de que o pão nutre que a conclusão de que outros pães irão nutrir, ocorre de igual forma, pois assimilamos suas propriedades e concluímos que possuem a mesma função. Não cogitamos, portanto, que o segundo pão possa estar envenenado, ou que não possua a mesma quantidade de nutrientes que o primeiro.

Ao afirmar isso, estamos admitindo a existência de propriedades não conhecidas através do raciocínio ou dos sentidos. Assim sendo, não temos como encontrar na similitude a garantia de que alguma coisa no presente tenha a mesma característica que outra no passado. Podemos concluir que a experiência se baseia numa relação de similitude, e que essa similitude nem sempre ocorre, logo não podemos dizer que tal coisa funcione do mesmo modo que outra no passado. Fica, portanto, impossível garantir por similitude a correspondência das coisas no passado e no futuro, por precisarmos desta para provarmos sua existência.

3/21/2012

COMO ASSIM AGIR VIRTUOSAMENTE?


O problema que pretendo apresentar e justifica-lo como sendo filosófico é se a virtude é una ou múltipla. Tal problema pode ser tido como filosófico, pois estamos tratando de algo não mensurável, e afirmar isso significa dizer que precisamos procurar o entendimento sobre a coisa pretendida, de tal modo que não usemos dos nossos sentidos para adquirir tal conhecimento. É também um problema relevante, pois é das definições de virtude, agir virtuosamente, ou ainda ser virtuoso que a sociedade se organiza com o intuito de viver bem.
A definição de virtude é de suma importância para que as pessoas consigam viver juntas. É através dela que podemos entender quais ações podem ser consideradas boas para o convívio em sociedade, ou ruins. A definição de virtude que pretendo utilizar é de que seria uma espécie de disposição para se fazer o bem, intrínseca ao ser humano. É aquela disposição onde o homem quer realmente fazer o bem para que a felicidade do coletivo possa ser alcançada. O problema se encontra quanto que da definição de virtude, se ela é una ou múltipla. Supondo que a virtude seja una, pensemos então que há somente uma forma de agir virtuosamente, e esta forma de agir virtuosamente é aquela regrada pela sociedade, pois as regras estabelecidas nesta são formadas para que a felicidade suprema consiga ser alcançada. Logo as ações humanas são regradas para que haja certo convívio bom em sociedade.
 Agora imaginemos um civil de boa índole, justo, correto perante todos, em que andando pela rua se depara com uma situação de agressão sexual a uma menina num beco escuro. Ele vai ao encontro do homem que está praticando o ato e pede gentilmente para ele parar com isso, por ser uma coisa errada a seu ver. Só que repentinamente, o agressor saca uma arma e ameaça matar o bom moço e a menina. No impulso o bom homem resolve se defender, tentando tirar a arma do agressor. Porém, a arma dispara matando o malfeitor. E agora? O bom homem matou o mau homem, e agir virtuosamente não significa que podemos tirar a vida de alguém. Mas se ele não tivesse feito isso, a morte seria o seu fim e o da menina, e também é errado agredir uma menina daquela forma. Desta forma ficamos no impasse. Hoje em dia para amenizar a angustia de “bons homens” existe na lei de que se a pessoa age em legitima defesa, pode ter a pena reduzida, porém sua ação perante a lei é considerada um crime. Ele cometeu um homicídio mesmo agindo virtuosamente. E tirar a vida de outro individuo não é considerado um bem moral e sim um ato que ajuda a corromper o bom funcionamento da sociedade. 
Podemos agora pensar, sob outro ponto de vista, que agir virtuosamente possui suas peculiaridades. Podemos cogitar que se ele estava buscando o bem de outro individuo e que o ato que o agressor praticava era um ato que poderia ajudar a corromper a sociedade (pois caso esse homem fosse impune poderia voltar a praticar tais atos e encorajaria outros homens a fazerem o mesmo), então de certa forma o bom homem agiu virtuosamente. Ele lutou para que o crime não ficasse ainda mais problemático como estava ficando. Então seria totalmente injusto coloca-lo na prisão por ter agido bem. A análise que podemos fazer disso é que o bom homem agiu bem, agiu virtuosamente de acordo com preceitos básicos de boa convivência, porém acabou matando o agressor. Podemos agora imaginar que a virtude poderia ser múltipla e não una como havíamos trabalhando até agora. 

O problema de adotar esse ponto de vista se encontra na hora de julgar se as ações executadas pelo bom homem foram realmente boas. Vai ver que o bom homem não era tão bom homem assim, pois ele poderia ter entrado naquele beco pra cobrar o aluguel do homem mau cujo dono do imóvel era um amigo seu, e acabou matando-o (não tendo em vista salvar a menina e sim por reconhecer o homem como sendo devedor). Por acidente acabou juntando o útil ao agradável. 

Portanto ficamos com o impasse se assim for aceita podemos pensar que a virtude pode ser modificada de acordo com as necessidades básicas em dado momento. Se acaso aceitarmos que a virtude seja una, impasses com crimes contra as regras de bem viver submetidas às condições extremas (como é o caso da agressão sexual) poderiam ser consideradas erradas sob qualquer aspecto, e, portanto puníveis sob qualquer aspecto.