A TESE IDEALISTA DE BERKELEY
George
Berkeley mostra as suas verdadeiras intenções quando que inicia o tratado sobre
o conhecimento humano. Pretende encontrar a verdade fugindo do senso comum sem
cair em certo grau de ceticismo (que é caracterizado por ele como sendo a
obscuridade das coisas). Quando isso acontece, afirma que o espírito humano
tenta participar da infinidade das coisas se esquecendo de sua finitude. Deste
modo podemos identificar, em primeiro lugar, que há certo conhecimento mediante
as possibilidades de se conhecer, e em segundo lugar, vemos as restrições
quanto ao uso das faculdades cognitivas, ou seja, só podemos utilizá-las para
conhecer coisas finitas. Aparece aqui o modo de conhecimento utilizado no
tratado: conhecemos por similitude, ou seja, similar conhece similar. No
momento que estabelecemos isso estamos, em última análise, afirmando que as
coisas finitas podem ser conhecidas por nós, por termos a mesma característica.
A
investigação ocorrerá na tentativa de encontrar o modo como o conhecimento se
configura para nós e como ele vai ser adquirido. Assim estabelece um ponto
muito importante para a organização do tratado onde a linguagem demonstraria a
capacidade do ser humano de construir ideias abstratas, e resolver questões que
não estão presentes no espirito humano. Parece que Berkeley tenta estabelecer a
distinção entre questões possíveis e impossíveis de serem resolvidas pelo ser
humano, e dentro das questões possíveis estabelece outra distinção acerca das
qualidades destas, onde elas poderiam ser classificadas como abstratas (o
conhecimento se dá através da linguagem, mais precisamente a lógica como forma
de estabelecer certas ligações entre as ideias abstratas, e a metafisica que
vai tratar dos questionamentos das coisas que estão além das coisas físicas,
porém o nosso intelecto consegue conceber, ou procurar certas ligações, por se
tratar de questionamentos que não implicam as concepções de finitude ou infinidade
para serem resolvidas,) ou não abstratas (são aquelas coisas físicas que o
espírito humano conseguiria compreender muito bem através do uso dos sentidos
somente). No caso das coisas não
abstratas, podemos ver que quando utilizamos do nosso aparato perceptual para
distinguir uma pessoa da outra, por exemplo, utilizamos as características que
qualificam este ser em grupo. Quando as pessoas descrevem, por exemplo: a Vera Fischer,
uma mulher alta, cabelos loiros e longos, pele bronzeada, olhos verdes, silhueta
definida, etc. a caracterizamos a partir de um grupo de qualidades. O espírito
humano consegue conceber tranquilamente a imagem mental, ou até consegue
identificar a pessoa como sendo uma e não outra.
O modo como
abstraímos e chegamos à concepção de uma característica particular é o que vai
nos permitir determinar o que seja uma mulher no geral (se é que podemos
utilizar tal termo). Isto é, quando generalizamos uma ideia, estamos em última
análise considerando que ela vai servir para definir algo que se apresente no
interior de dado conjunto quando sendo esta coisa em particular, porém
apresentando a ideia geral de ser algo, não fora do corpo, mas sim a ideia
daquilo em si. Tomando como exemplo, ainda a Vera Fischer, podemos ver que a
ideia particular que fazemos da pessoa Vera Fischer pode se tornar uma
generalização da ideia de mulher a partir da análise de que o que a torna
mulher e o que ela tem em comum com outras mulheres. E é a partir dessas características
que o grupo de mulheres é estabelecido, e não chamado por outro grupo. Para
tanto, é preciso estabelecer o que são essas características em geral que
tornam um ser mulher e não outra coisa.
Outro exemplo que melhor se adequa a situação
e aparece no corpo do tratado é a questão da cor: um corpo qualquer possui
certa coloração. No instante que analisamos queremos estipulá-la como sendo
pertencente a algo em particular. Assim quando apontamos para algo e afirmamos
que este algo tem coloração tal, estamos fazendo associação com a ideia
abstrata de cores que temos e estipulamos a partir da ideia de uma cor em
particular. Ou seja, conseguimos dizer que verde é um verde específico, pois no
nosso espirito catalogamos, de certa forma, tudo o que for verde, depois tudo o
que for cor, para termos certa concepção de cor no geral. Assim conseguimos
especificar a cor do objeto cadeira: dizemos que ela é verde porque possui
aquela cor particular que o nosso espirito consegue comparar com as outras
cores e por ultimo concebe a ideia geral de cor.
Para
resolver de uma vez por todas os impasses que sua teoria poderia causar,
Berkeley procura mostrar que a capacidade de abstrair as coisas no geral deve
levar em consideração esses dois aspectos importantes que consistem:
a) Abstraímos qualidades das coisas que
estão em certo grupo. Para conseguirmos tal intento precisamos considera-las
fora do feixe de ideias que configuram a coisa;
b) Abstraímos estas ideias tendo
consciência de que elas se apresentam dependentes da ideia de algo (elas só
existem dentro deste sistema).
Assim deste modo o que tomamos como triangulo no geral não
seria um triangulo específico e sim as características que generalizam a ideia
de triângulo: uma figura geométrica, que possui três ângulos e três lados.
Assim podemos ver sobressair as características que definem um triangulo no
geral a partir de características particulares dos elementos que estão
inseridos no grupo dos triângulos, porém inseridos dentro de uma ideia de um
corpo complexo, em que tais características não poderiam ser encontradas fora
de um corpo: são os casos do ângulo e da extensão. Assim as ideias particulares
de triângulo isósceles, triângulo escaleno, triângulo retângulo e triângulo
equilátero, possuindo as qualidades em comum: três ângulos e três extensões na
formação da ideia da figura.
ASPECTOS DA TESE
REALISTA REFUTADOS POR BERKELEY
Os realistas aceitam como Berkeley que as ideias existem para
um sujeito, porém existe algo que não é ideia existindo para além da percepção
sendo similares a ideias. O parágrafo quatro do corpo do tratado mostra um
aspecto importante da tese realista: as coisas podem existir mesmo quando não
são percebidas, logo as coisas poderiam existir sem um ser que percebe. O
parágrafo cinco possui a finalidade de desmontar essa tese realista, afirmando
que é impossível abstrair as qualidades dos objetos que não conhecemos. Se
aceitarmos Berkeley, com sua teoria de que as coisas deveriam ser percebidas
para existirem, estamos afirmando que as coisas são feixes de ideia. Agora se
aceitarmos a teoria realista, podemos cair em outro problema: a relação entre
incomparáveis (ex. inodoro e odoro). A percepção para Berkeley teria o papel de
garantir a existência da coisa. Assim se algo não é percebido, não vai existir.
Com esta afirmação realista, levanta outra questão, quanto à substancialidade
da coisa. Isso suscita outro problema: parece que estaríamos percebendo a coisa
fora dela mesma. Ou seja, não estaríamos usando os sentidos para conhecer a
coisa, estaríamos tratando-a como sendo algo que não ela mesma e que ela
enquanto coisa poderia ser percebida sob aspectos diferenciados, ora como coisa
perceptível, ora como outra coisa não perceptível, ferindo, portanto, o
principio de não contradição. Berkeley afirmava que estaríamos tratando a coisa
como não sendo ela mesma.
Outra questão que Berkeley
aponta no seu tratado é o problema de afirmarmos que a matéria poderia ser uma
substância não sensível. No parágrafo nove são diferenciadas as qualidades
primárias (extensão, forma, movimento, repouso, solidez e número) existentes na
matéria das coisas, das qualidades secundárias (cor, som e sabor) percebidas
através dos sentidos. Berkeley desmonta a teoria da seguinte forma:
P1. A matéria seria uma substância
inerte não sensível e possui as qualidades primárias subsistindo em si.
P2. As qualidades primárias existem
dentro do espírito humano e são ideias.
P3. Ideia assemelha-se à outra ideia;
a relação de semelhança só pode se dar entre ideias.
CL1. Como a ideia é composta pelo
espírito, só poderia ser produzida por algo não inerte, pois estamos tratando
em primeiro: de algo que percebe; em segundo: como matéria é algo percebido,
logo deve ter alguma outra coisa que a percebe.
CL2. Se algo é percebido, então deve
ser composto por um feixe de ideias, que forma a ideia daquela coisa, e não as
suas qualidades primárias por si só.
Assim sendo podemos notar que a coisa sensível é formada por
feixe de ideias (que é a percepção frequente de um conjunto de ideias que
compõem uma ideia em particular), que são oriundas de percepções particulares,
onde deve existir um espírito que as percebe. Se não for percebido por um
sujeito (pelo espírito do sujeito) deve ser percebido por um espírito divino,
pois assim garante a existência das coisas e deste modo refuta a tese realista respondendo
a seguinte pergunta: O que garantiria a existência da coisa quando que não é
percebida por um ser que percebe?
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