6/09/2012

REFLEXÕES SOBRE O IDEALISMO DE BERKELY




A TESE IDEALISTA DE BERKELEY

George Berkeley mostra as suas verdadeiras intenções quando que inicia o tratado sobre o conhecimento humano. Pretende encontrar a verdade fugindo do senso comum sem cair em certo grau de ceticismo (que é caracterizado por ele como sendo a obscuridade das coisas). Quando isso acontece, afirma que o espírito humano tenta participar da infinidade das coisas se esquecendo de sua finitude. Deste modo podemos identificar, em primeiro lugar, que há certo conhecimento mediante as possibilidades de se conhecer, e em segundo lugar, vemos as restrições quanto ao uso das faculdades cognitivas, ou seja, só podemos utilizá-las para conhecer coisas finitas. Aparece aqui o modo de conhecimento utilizado no tratado: conhecemos por similitude, ou seja, similar conhece similar. No momento que estabelecemos isso estamos, em última análise, afirmando que as coisas finitas podem ser conhecidas por nós, por termos a mesma característica.

A investigação ocorrerá na tentativa de encontrar o modo como o conhecimento se configura para nós e como ele vai ser adquirido. Assim estabelece um ponto muito importante para a organização do tratado onde a linguagem demonstraria a capacidade do ser humano de construir ideias abstratas, e resolver questões que não estão presentes no espirito humano. Parece que Berkeley tenta estabelecer a distinção entre questões possíveis e impossíveis de serem resolvidas pelo ser humano, e dentro das questões possíveis estabelece outra distinção acerca das qualidades destas, onde elas poderiam ser classificadas como abstratas (o conhecimento se dá através da linguagem, mais precisamente a lógica como forma de estabelecer certas ligações entre as ideias abstratas, e a metafisica que vai tratar dos questionamentos das coisas que estão além das coisas físicas, porém o nosso intelecto consegue conceber, ou procurar certas ligações, por se tratar de questionamentos que não implicam as concepções de finitude ou infinidade para serem resolvidas,) ou não abstratas (são aquelas coisas físicas que o espírito humano conseguiria compreender muito bem através do uso dos sentidos somente).  No caso das coisas não abstratas, podemos ver que quando utilizamos do nosso aparato perceptual para distinguir uma pessoa da outra, por exemplo, utilizamos as características que qualificam este ser em grupo. Quando as pessoas descrevem, por exemplo: a Vera Fischer, uma mulher alta, cabelos loiros e longos, pele bronzeada, olhos verdes, silhueta definida, etc. a caracterizamos a partir de um grupo de qualidades. O espírito humano consegue conceber tranquilamente a imagem mental, ou até consegue identificar a pessoa como sendo uma e não outra.

O modo como abstraímos e chegamos à concepção de uma característica particular é o que vai nos permitir determinar o que seja uma mulher no geral (se é que podemos utilizar tal termo). Isto é, quando generalizamos uma ideia, estamos em última análise considerando que ela vai servir para definir algo que se apresente no interior de dado conjunto quando sendo esta coisa em particular, porém apresentando a ideia geral de ser algo, não fora do corpo, mas sim a ideia daquilo em si. Tomando como exemplo, ainda a Vera Fischer, podemos ver que a ideia particular que fazemos da pessoa Vera Fischer pode se tornar uma generalização da ideia de mulher a partir da análise de que o que a torna mulher e o que ela tem em comum com outras mulheres. E é a partir dessas características que o grupo de mulheres é estabelecido, e não chamado por outro grupo. Para tanto, é preciso estabelecer o que são essas características em geral que tornam um ser mulher e não outra coisa.

 Outro exemplo que melhor se adequa a situação e aparece no corpo do tratado é a questão da cor: um corpo qualquer possui certa coloração. No instante que analisamos queremos estipulá-la como sendo pertencente a algo em particular. Assim quando apontamos para algo e afirmamos que este algo tem coloração tal, estamos fazendo associação com a ideia abstrata de cores que temos e estipulamos a partir da ideia de uma cor em particular. Ou seja, conseguimos dizer que verde é um verde específico, pois no nosso espirito catalogamos, de certa forma, tudo o que for verde, depois tudo o que for cor, para termos certa concepção de cor no geral. Assim conseguimos especificar a cor do objeto cadeira: dizemos que ela é verde porque possui aquela cor particular que o nosso espirito consegue comparar com as outras cores e por ultimo concebe a ideia geral de cor.

Para resolver de uma vez por todas os impasses que sua teoria poderia causar, Berkeley procura mostrar que a capacidade de abstrair as coisas no geral deve levar em consideração esses dois aspectos importantes que consistem:
a)     Abstraímos qualidades das coisas que estão em certo grupo. Para conseguirmos tal intento precisamos considera-las fora do feixe de ideias que configuram a coisa;
b)     Abstraímos estas ideias tendo consciência de que elas se apresentam dependentes da ideia de algo (elas só existem dentro deste sistema).

Assim deste modo o que tomamos como triangulo no geral não seria um triangulo específico e sim as características que generalizam a ideia de triângulo: uma figura geométrica, que possui três ângulos e três lados. Assim podemos ver sobressair as características que definem um triangulo no geral a partir de características particulares dos elementos que estão inseridos no grupo dos triângulos, porém inseridos dentro de uma ideia de um corpo complexo, em que tais características não poderiam ser encontradas fora de um corpo: são os casos do ângulo e da extensão. Assim as ideias particulares de triângulo isósceles, triângulo escaleno, triângulo retângulo e triângulo equilátero, possuindo as qualidades em comum: três ângulos e três extensões na formação da ideia da figura.


ASPECTOS DA TESE REALISTA REFUTADOS POR BERKELEY

Os realistas aceitam como Berkeley que as ideias existem para um sujeito, porém existe algo que não é ideia existindo para além da percepção sendo similares a ideias. O parágrafo quatro do corpo do tratado mostra um aspecto importante da tese realista: as coisas podem existir mesmo quando não são percebidas, logo as coisas poderiam existir sem um ser que percebe. O parágrafo cinco possui a finalidade de desmontar essa tese realista, afirmando que é impossível abstrair as qualidades dos objetos que não conhecemos. Se aceitarmos Berkeley, com sua teoria de que as coisas deveriam ser percebidas para existirem, estamos afirmando que as coisas são feixes de ideia. Agora se aceitarmos a teoria realista, podemos cair em outro problema: a relação entre incomparáveis (ex. inodoro e odoro). A percepção para Berkeley teria o papel de garantir a existência da coisa. Assim se algo não é percebido, não vai existir. Com esta afirmação realista, levanta outra questão, quanto à substancialidade da coisa. Isso suscita outro problema: parece que estaríamos percebendo a coisa fora dela mesma. Ou seja, não estaríamos usando os sentidos para conhecer a coisa, estaríamos tratando-a como sendo algo que não ela mesma e que ela enquanto coisa poderia ser percebida sob aspectos diferenciados, ora como coisa perceptível, ora como outra coisa não perceptível, ferindo, portanto, o principio de não contradição. Berkeley afirmava que estaríamos tratando a coisa como não sendo ela mesma.

 Outra questão que Berkeley aponta no seu tratado é o problema de afirmarmos que a matéria poderia ser uma substância não sensível. No parágrafo nove são diferenciadas as qualidades primárias (extensão, forma, movimento, repouso, solidez e número) existentes na matéria das coisas, das qualidades secundárias (cor, som e sabor) percebidas através dos sentidos. Berkeley desmonta a teoria da seguinte forma:
P1. A matéria seria uma substância inerte não sensível e possui as qualidades primárias subsistindo em si.
P2. As qualidades primárias existem dentro do espírito humano e são ideias.
P3. Ideia assemelha-se à outra ideia; a relação de semelhança só pode se dar entre ideias.
CL1. Como a ideia é composta pelo espírito, só poderia ser produzida por algo não inerte, pois estamos tratando em primeiro: de algo que percebe; em segundo: como matéria é algo percebido, logo deve ter alguma outra coisa que a percebe.
CL2. Se algo é percebido, então deve ser composto por um feixe de ideias, que forma a ideia daquela coisa, e não as suas qualidades primárias por si só.

Assim sendo podemos notar que a coisa sensível é formada por feixe de ideias (que é a percepção frequente de um conjunto de ideias que compõem uma ideia em particular), que são oriundas de percepções particulares, onde deve existir um espírito que as percebe. Se não for percebido por um sujeito (pelo espírito do sujeito) deve ser percebido por um espírito divino, pois assim garante a existência das coisas e deste modo refuta a tese realista respondendo a seguinte pergunta: O que garantiria a existência da coisa quando que não é percebida por um ser que percebe? 

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