O problema que pretendo apresentar e justifica-lo como sendo
filosófico é se a virtude é una ou múltipla. Tal problema pode ser tido como
filosófico, pois estamos tratando de algo não mensurável, e afirmar isso
significa dizer que precisamos procurar o entendimento sobre a coisa
pretendida, de tal modo que não usemos dos nossos sentidos para adquirir tal conhecimento.
É também um problema relevante, pois é das definições de virtude, agir
virtuosamente, ou ainda ser virtuoso que a sociedade se organiza com o intuito
de viver bem.
A definição de virtude é de suma importância para que as
pessoas consigam viver juntas. É através dela que podemos entender quais ações
podem ser consideradas boas para o convívio em sociedade, ou ruins. A definição
de virtude que pretendo utilizar é de que seria uma espécie de disposição para
se fazer o bem, intrínseca ao ser humano. É aquela disposição onde o homem quer
realmente fazer o bem para que a felicidade do coletivo possa ser alcançada. O problema
se encontra quanto que da definição de virtude, se ela é una ou múltipla. Supondo
que a virtude seja una, pensemos então que há somente uma forma de agir
virtuosamente, e esta forma de agir virtuosamente é aquela regrada pela
sociedade, pois as regras estabelecidas nesta são formadas para que a
felicidade suprema consiga ser alcançada. Logo as ações humanas são regradas
para que haja certo convívio bom em sociedade.
Agora imaginemos um civil
de boa índole, justo, correto perante todos, em que andando pela rua se depara
com uma situação de agressão sexual a uma menina num beco escuro. Ele vai ao
encontro do homem que está praticando o ato e pede gentilmente para ele parar
com isso, por ser uma coisa errada a seu ver. Só que repentinamente, o agressor
saca uma arma e ameaça matar o bom moço e a menina. No impulso o bom homem
resolve se defender, tentando tirar a arma do agressor. Porém, a arma dispara
matando o malfeitor. E agora? O bom homem matou o mau homem, e agir
virtuosamente não significa que podemos tirar a vida de alguém. Mas se ele não tivesse
feito isso, a morte seria o seu fim e o da menina, e também é errado agredir
uma menina daquela forma. Desta forma ficamos no impasse. Hoje em dia para
amenizar a angustia de “bons homens” existe na lei de que se a pessoa age em
legitima defesa, pode ter a pena reduzida, porém sua ação perante a lei é
considerada um crime. Ele cometeu um homicídio mesmo agindo virtuosamente. E tirar
a vida de outro individuo não é considerado um bem moral e sim um ato que ajuda
a corromper o bom funcionamento da sociedade.
Podemos agora pensar, sob outro ponto de vista, que agir
virtuosamente possui suas peculiaridades. Podemos cogitar que se ele estava
buscando o bem de outro individuo e que o ato que o agressor praticava era um
ato que poderia ajudar a corromper a sociedade (pois caso esse homem fosse impune
poderia voltar a praticar tais atos e encorajaria outros homens a fazerem o
mesmo), então de certa forma o bom homem agiu virtuosamente. Ele lutou para que
o crime não ficasse ainda mais problemático como estava ficando. Então seria
totalmente injusto coloca-lo na prisão por ter agido bem. A análise que podemos
fazer disso é que o bom homem agiu bem, agiu virtuosamente de acordo com preceitos
básicos de boa convivência, porém acabou matando o agressor. Podemos agora
imaginar que a virtude poderia ser múltipla e não una como havíamos trabalhando
até agora.
O problema de adotar esse ponto de vista se encontra na hora de julgar se as ações executadas pelo bom homem foram realmente boas. Vai ver que o bom homem não era tão bom homem assim, pois ele poderia ter entrado naquele beco pra cobrar o aluguel do homem mau cujo dono do imóvel era um amigo seu, e acabou matando-o (não tendo em vista salvar a menina e sim por reconhecer o homem como sendo devedor). Por acidente acabou juntando o útil ao agradável.
Portanto ficamos com o impasse se assim for aceita podemos pensar que a virtude pode ser modificada de acordo com as necessidades básicas em dado momento. Se acaso aceitarmos que a virtude seja una, impasses com crimes contra as regras de bem viver submetidas às condições extremas (como é o caso da agressão sexual) poderiam ser consideradas erradas sob qualquer aspecto, e, portanto puníveis sob qualquer aspecto.
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