Essa breve reflexão terá por intento apresentar,
comparar e analisar o que os prefácios convergem quanto ao objeto de estudo da
Crítica da Razão Pura. Pontos relevantes serão apresentados tentando explanar o
como ambas ajudam a entender a verdadeira proposta da obra em questão, que é a
analise da relação entre coisa conhecida, e ser que obtém conhecimento.
O primeiro
prefácio da Crítica da Razão Pura apresenta certa preocupação na organização e
manutenção da metafisica como ciência viável, afirmando a diferença entre
questões que podem ser respondidas e as questões que não podem ser respondidas
em AVII. Em A VIII justifica afirmando que essas questões fazem com que a razão
humana “caia em obscuridades”. Se acaso esse problema de fato persistisse, poderíamos
testemunhar certa indefinição no que seja realmente a metafísica em seu
exercício pleno. Poderíamos dizer, assim que o objeto da metafisica seriam obscuridades
que o intelecto humano não poderia resolver, por primeiro gerar ambiguidade na
definição de termos, e segundo lugar, por não respeitar princípios lógicos básicos,
como por ex.: o principio de não contradição, sendo assim as resoluções de tais
problemas impossíveis. Para Kant o problema estava em conceber este tipo de
questão fazendo parte da metafisica, e por isso era preciso delimitar o objeto
de estudo da metafisica. Ou seja, era preciso entender como a razão poderia ser
utilizada para se obter um conhecimento verdadeiro das coisas. Por esse motivo
era preciso delimitar os limites da razão, sendo este o papel do “tribunal da
razão” entendido em A XI. Esse tribunal tem como objetivo maior assegurar que a
razão seja realmente entendida como parte do processo cognitivo e como as
coisas podem estar funcionando
Em A XII podemos notar que a razão em si não
poderia ser baseada em experimentações por possuir uma base frágil para o
entendimento das coisas. Isto é, Kant dá indícios de que existe algo a mais no
processo de conhecimento das coisas. O segundo prefácio apresenta a ideia de
“revolução copernicana”, cujo entendimento das coisas pode ser obtido a partir
da formação de juízos sintéticos a priori. É um sistema metafisico proposto por
Kant onde o que deveria ser avaliado não são os conceitos que determinam certa
coisa sendo tal “x” mas sim, deveríamos possuir um conhecimento a priori dela. Podemos
notar que a ideia principal no caso do prefácio dois, é de fugir da base empírica
na metafisica, como propõe Torretti, deixando de compara-la com outra ciência
qualquer, pois não só o empirismo faz parte do processo de obtenção de
conhecimento, mas também a analise racional da ideia de objeto e a sua relação
com o ser que percebe. Assim em contrapartida a Locke, Kant propõe uma
metafisica baseada em um eixo principal: a análise da relação entre coisa
percebida e ser que percebe.
Assim sendo "alterar o método que a
metafísica até agora seguiu, operando assim nela uma revolução completa, segundo
o exemplo dos geômetras e dos físicos" vai ser o principal objetivo da
metafisica. A analogia apresentada neste
excerto se refere a algo que pode ser explicado a priori e constatado a
posteriori. Ou seja, está propondo um sistema misto, denominado juízo sintético
a priori. O juízo a priori pode ser dividido em dois o a priori e o a priori
puro. No primeiro caso podemos ter o juízo a priori de que, por exemplo: se alguém
se jogar do abismo morrerá. Ou seja, a partir de dados empíricos eu formulei
tal juízo, uma universalidade. Já o conhecimento a priori puro é aquele
conhecimento que independe da constatação empírica. Ou seja, é o caso dos geômetras
e é a esse tipo de conhecimento que Kant se refere no excerto. Quanto a aplicabilidade podemos pensar no
seguinte exemplo: o engenheiro vai construir num barranco uma casa; para que a
casa não desmorone, ele precisa fazer com que a terra permaneça estável. O modo
de se resolver isso é manter o barranco em uma angulação de 45°. Para isso ele
precisa fazer o calculo para poder aplicar tal conhecimento na sua construção e
garantir que a casa não caia. Ou seja, é um conhecimento tido anteriormente por
abstração e posteriormente usado para este fim. Podemos notar que tal
conhecimento geométrico é extensivo e possui certa relação. Portanto estamos
falando de juízos sintéticos a priori.
Outro exemplo
de juízo a priori é o de Copérnico: que trata justamente dessa concepção, onde
os objetos são tratados em relação com o ser que os percebe. O problema que Copérnico tinha para conseguir
mostrar o porquê que Marte fazia uma volta totalmente diferenciada em relação à terra, é um exemplo que mostra a relação
entre os conhecimentos a priori e a posteriori (como sendo partes do conhecimento).
No momento que temos um cálculo que diz que a rota que marte deveria seguir era
X, enquanto que na observação empírica constatava-se que a rota tomada na
realidade era Y constatou-se a possibilidade de que algo não estava sendo
levado em consideração: o posicionamento da Terra. Quando colocou a Terra em
uma posição fora do centro, Copérnico percebeu que não se tratava de erro de
cálculo e sim de um erro posicional, por ter constatado nos novos cálculos. Isso
quer dizer que o ponto-de-vista da observação poderia estar errado porque a contraprova
mostrava isso. Assim sendo, era preciso muito mais que a observação e sim uma
base racional para provar o que realmente acontecia no céu.
Concluo afirmando que ambos os prefácios se
complementam e juntos conseguem demonstrar perfeitamente o intuito da critica
da razão pura. Isto é mostrar que o verdadeiro objeto de estudo não é a coisa
percebida, como sendo um objeto conhecido por meio dos sentidos puramente e sim
a relação entre conhecimento empírico e racional que podemos ter com as coisas
conhecidas. A analogia feita com os geômetras e a proposta da revolução copernicana
na filosofia, nada mais são que pontos correspondentes da mesma teoria e que
procuram responder o como se dá a possibilidade de formular juízos sintéticos a
priori, buscando de certo modo uma nova
significação da metafisica.
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