O problema da existência de outras mentes está relacionada
com a ideia de ceticismo quanto a existência de um corpo vinculado a uma mente,
pois uma vez aceita tal ideia, podemos nos perguntar se essa relação também
ocorre com outros sujeitos que percebemos a sua existência. O filme “Blade
Runner”, a meu ver, tenta discutir melhor essa ideia na figura dos androides,
uma vez que eles aparentam sentir algo por outros androides, ou quando que
possuem vontades e sentimentos humanos. Assim podemos nos perguntar se a
relação mente e corpo se dá de que modo nos outros seres: É uma tentativa de explicar a possibilidade de
interação entre mente e corpo, onde o pressuposto básico não estaria ligado
somente a minha mente, e sim a ideia de existência de mentes e corpos que não
sejam os meus, por exemplo.
O que podemos destacar, em primeiro momento é como podemos
entender as coisas que percebemos. Se formos um tanto coerentes com o nosso
mundo sensitivo, e assumimos sua existência, dizemos que conhecemos através de
experiências sensíveis, e que tudo o que sentimos ou pensamos possuem certa
relação de causa e efeito com as coisas mundanas. Exemplo: a visão. Quando
enxergamos um ônibus desgovernado vindo em nossa direção, a reação que temos
naquele instante é de sair do caminho dele, buscando a conservação da vida. Ou
seja, utilizamos o nosso aparato perceptual, fazemos uma leitura da situação
com a nossa mente, e concluímos que se continuarmos parados no mesmo lugar
seremos atropelados e perderemos a vida corporal. Podemos notar, portanto, que
com as sensações que sentimos através do nosso aparato perceptual buscamos de
certa forma, analisar a situação, e o fazemos através da mente. Agora, podemos
supor dai que qualquer outra pessoa faria o mesmo tipo de relação mental? Agora
pensemos no caso de uma pessoa cega. Ela possui sentidos ela não enxerga o
ônibus vindo em sua direção, porem ouve. Ao ouvir o ônibus o cego não sabe que
este passará por cima de si ao se aproximar. Ou seja, a pessoa não fará a mesma
relação mental que a outra pessoa fez. A relação que ela faz com a mente e o
corpo é totalmente diferenciada daquela feita por uma pessoa vidente. Mas se
pudesse enxergar provavelmente teria salvado sua própria vida.
Pensemos agora no caso dos mutantes e dos mortos-vivos. O
que Blackburn pretendia ao mostrar a possibilidade de existência dessas duas
subespécies é que esses dois grupos poderiam aparentar ser seres humanos, ao passo
que não eram, pois possuíam todas as características que os definiam como tal.
Assim poderíamos nos perguntar o que serve como pressuposto inicial para que
possamos afirmar a relação entre mente corpo. A existência ou não de
consciência era o ponto principal da discussão. Se assumíssemos que os
mortos-vivos não tivessem consciência, como poderíamos explicar as reações que
possuíam quando fossem machucados. Deste modo podemos nos perguntar se há a
possibilidade de existir seres que possuem esta relação e se é algo exclusivo
do ser humano.
O filme Blade Runner aborda bem este questionamento. A
história toda se passa na Los Angeles de 2019, em que a ciência estava tão
avançada a ponto de ser viável a produção de androides. Esses androides foram
criados com o objetivo básico de servir aos seres humanos para os mais diversos
fins, mas a humanidade não os queria mais e resolveu descarta-los por diversos
motivos. Harrison Ford faz o papel do caçador de androides Rick Deckard, que
consegue identifica-los e os liquida. Mas em determinado momento coisas
estranhas vão ocorrendo com Rick e com os androides aos quais ele vai se
envolvendo ao decorrer do filme. A androide Pris é um exemplo: parece que ela
aprende a desenvolver sentimentos humanos quando que mostra interesse por Rick
e acaba se apaixonando por ele. Também no momento quando ela começa a pensar
até que ponto consegue pensar, ou se tudo o que ela aprendeu (ou acha que
aprendeu) não passam de programas implantados no seu chip. O que podemos notar
é que o
questionamento anteriormente feito pode ser respondido de modo
afirmativo. Outro androide, o Roy, sugere isso. Ele tinha o desejo de viver o
máximo de tempo possível, e acreditava que aquele não era o momento de sua
partida. Ele queria continuar vivo a todo o custo. Para tanto foi procurar o
seu criador e pediu que essa o ajudasse no seu intento. Chegando lá, o seu
criador lhe disse que isso era impossível de ser feito. Por isso Roy mata-o em
excesso de fúria.
O comportamento de Roy durante o filme é muito interessante.
Parece que ele vai deixando de ser máquina e vai virando humano. Podemos notar
que isso ocorre quando percebe a morte de sua companheira. Ele sente a morte
dela, e por esse motivo também tenta matar Rick. Deste modo podemos perceber
que há a possibilidade de uma coisa que não seja humana fazer relações com as
coisas