Saber se todos nós
percebemos a mesma coisa, do mesmo jeito, aparenta ser uma necessidade para que
nos reafirmemos como sujeitos realmente existentes no mundo. Pôr à prova as
coisas que percebemos e criar teorias sobre elas é o modo como reagimos ao
problema. A teoria do cérebro numa cuba, apresentada por Hilary Putnam, aponta um
dos problemas mais intrigantes do conhecimento, a saber: se aquilo que
percebemos pode ser tido como conhecimento genuíno pelas nossas mentes, e se
estariam ligadas de algum modo aos nossos corpos. Um outro problema também deve
ser levantado: se realmente existem
outras pessoas com consciência que não “eu”. Uma vez levantada a possibilidade
de ilusão como ter certeza que as outras pessoas também existam?
Supomos que duas pessoas
trabalham juntas numa loja que possui um sistema de ar-condicionado. Ambas
precisam utilizar um uniforme que age como isolante térmico de igual modo. As
condições a qual essas duas pessoas estão submetidas são as mesmas, embora a Maria
sinta frio, e Joana não. Como explicar isso? As duas não estão submetidas a um
mesmo ambiente? A explicação mais usual é que a experiência que uma vivencia
não é a mesma da outra. Mas como isso poderia acontecer? Elas não estão
submetidas a um mesmo meio? Como poderia uma sentir frio e a outra sentir
calor? São perguntas que nós fazemos quando acontece alguma coisa que não
respeita certo padrão pressuposto. No exemplo as duas meninas estão sentindo
coisas diferentes, mesmo estando submetidas a um mesmo meio. O certo seria
neste caso (para o nosso pensamento intuitivo) que, ou bem ambas sentissem
calor, ou bem ambas sentissem frio.
Agora se aceitarmos que cada uma sente o
ambiente de acordo com os seus sentidos, então a experiência seria relativa a
eles[1]. Mas
se eu sinto o ambiente de um modo e tenho para mim que aquela sensação é real,
e a outra pessoa afirma sentir o clima de modo diferenciado, quem diz que ela
está correta? Ou ainda, será que eu tenho razões suficientes para acreditar que
outras pessoas existam, tendo em vista que só tenho contato com a minha
consciência e não a dos outros? As outras pessoas, o olfato, o paladar, tudo
aquilo que percebemos seriam frutos da imaginação. Deste modo nada que
conhecemos poderia ser tido como genuinamente verdadeiro.
Mesmo assim
consideramos ser um disparate completo pensar que as coisas poderiam não
existir, sendo uma ilusão, ou então que todas as pessoas que não eu são na
verdade andrógenos sem consciência. Mas mesmo assim não temos razão nenhuma
para afirmarmos que não é o caso de estarmos envolvidos em uma teia de ilusões,
ou que essas pessoas realmente existam. Nagel apresenta um fator importante que
tem por finalidade responder parcialmente o questionamento: o instinto. Dizemos
que sabemos da existência de outros seres humanos conscientes de si, porque
intuímos. Mas seria essa a resposta correta para o problema? Como assim o intuição?
Quais são as razões suficientes[2] que
legitimam o uso dos instintos neste caso?
O que posso afirmar até
agora é que não existe uma razão suficiente, pois uma vez que os instintos
fazem parte do nosso cérebro, e sendo ele o ludibriado, não temos como saber se
realmente condiz com os fatos acreditar ou não naquilo que percebemos. Passemos,
então para a análise do segundo problema: se existe uma ligação entre mente e
corpo. Ambas as meninas do exemplo sentiram coisas diferentes dentro do mesmo
ambiente. Isto quer dizer que tudo o que elas sentiram passou para o cérebro
delas? Se aceitarmos que existe um cientista maluco aplicando choques no
cérebro que está dentro de uma cuba (coma aponta a teoria de Hilary Putnam), o
que ela pode sentir nada mais é que ilusão. Aí se põe em dúvida a existência da
relação entre mente e corpo. Mesmo assim deixemos essa dúvida latente. Suponhamos,
então que não há um sujeito maluco aplicando choques elétricos no cérebro, e
que também a mente e o corpo existam. Deste modo o que é percebido passa por
etapas para se chegar ao verdadeiro conhecimento. Tanto Blackburn, quanto Nagel
apresentam um processo dualístico de obtenção do conhecimento: existe uma parte
do conhecimento que se dá no mundo sensível, e outra parte que se dá na mente,
no pensamento, no espirito ou no fantasma
na máquina propriamente dito.
A questão agora está no
como essa relação se dá: qual o processo envolvido na relação entre mente e
corpo? A brincadeira proposta por Hilary Putnam parece seguir esse mesmo caminho:
suponhamos que não exista corpo algum, e tudo o que tenhamos seja na verdade um
monte de terminações nervosas. Mesmo assim, o autor parte do pressuposto que
acreditamos na existência de um corpo e de uma mente unidos. E se assim o fosse
como seria? Como esses dois estágios estariam interligados entre si? Por ora,
posso responder parcialmente que o corpo entraria em contato com as coisas
externas: sentiria as sensações. De algum modo mágico estas informações se
alojariam na consciência.
Mesmo assim, essa não
seria a melhor resposta para o problema. Por enquanto fiquemos com a seguinte
constatação: parece que existem coisas que ocorrem no mundo externo e outras
coisas que ocorrem nas nossas mentes. Como essas duas coisas se ligam, não sei,
mas tenho certeza de que é a partir de um questionamento como esse que
procuramos definir o que é conhecimento.
Bibliografia:
1. Putnam,
Hilary. Razão, Verdade e História.
Publicações Don Quixote, 1992.
2. Blackburn,
Simon. Pense: Uma Introdução à Filosofia. Lisboa: Gradiva, 1999.
3.
Nagel, T. Uma
Breve Introdução à Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
[1] Este trabalho seria desenvolvido
após introdução a termos e concepções filosóficas, como por exemplo: o
relativismo.