4/18/2012

COMENTÁRIO ÀS SEÇÕES III E IV DE INVESTIGAÇÃO SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO E SOBRE OS PRINCIPIOS DA MORAL DE DAVID HUME


No inicio da seção três Hume assume a existência de um principio que conecta os pensamentos e ideias, que seria causa do entendimento das coisas, em que os pensamentos arbitrários seriam, ora excluídos – por não possuírem ligação com o conteúdo da ideia –, ora aceitos desde que mostradas sob quais circunstâncias tal ideia se contatou com o restante do pensamento (Poderíamos até pensar que a mente humana agiria como filtro de conteúdos, porém essa discussão não faz parte do pensamento do filósofo). Para justificar tal asserção Hume exemplifica o fato expondo as questões do sonho e o do diálogo entre pessoas. No caso do sonho temos uma situação ocorrendo em decorrência de outra. Poderíamos até dizer que se trata de uma relação causal, onde teríamos uma ocorrência de eventos interligados entre si ocasionando um evento. Também poderíamos dizer que o nosso cérebro estaria relacionando coisas congruamente (poderíamos nos remeter a ideia de causa e efeito?), onde os nossos cérebros associariam coisas que possuem em comum certa utilidade, ou ocupam mesmo espaço, ou possuem certa propriedade em comum, etc. O caso da conversa é um pouco mais delicado. Podemos estar conversando normalmente com uma pessoa sobre política partidária, e repentinamente surgir certa discussão sobre o melhor corte de cabelo. Mesmo se isso acontecesse, notaríamos que há relação entre pensamentos. A pessoa que inseriu o assunto no meio da conversa sobre política, poderia muito bem ter comentado o quão lindos são os cabelos de uma mulher que participa ativamente do ambiente, e os cabelos dela por serem espetaculares acabaram entrando no meio da conversa. Pode ocorrer também que o assunto não se desvirtue, onde uma das partes atuantes na conversa retome o assunto principal e não dê grade atenção ao assunto adjacente.

Hume afirmava que essas conexões possuíam três princípios, a saber: semelhança, contiguidade e causa e efeito. A semelhança exemplificava com a similitude entre um retrato e a pessoa. Já a contiguidade, por sua vez, utiliza como exemplo o cômodo da casa que remeteria ao ambiente casa. E por último, como exemplo de causa e efeito, utiliza o machucado onde este seria a causa da dor. A maneira pela qual Hume tenta garantir a usabilidade de tais conceitos é a partir do uso de exemplos. Para tanto precisa mostrar que “essa enumeração é completa”, ou seja, “que não há outro princípio de enumeração além desse”. Por isso a utilização de exemplos se torna fundamental para que consigamos generalizar a situação e podermos dizer que tais princípios são legítimos e podem ser usados nos casos de conversa ou sonho como anteriormente exposto. 

Hume viu a necessidade de analisar esses efeitos nas paixões e na imaginação. Utilizando o sentido de paixão afetar-se, notemos que de certa forma as ações humanas se direcionam para algum fim (não é de vã vontade que o homem age). Assim sendo, utiliza o caso da literatura. O intento de um escritor quando redige sua obra, nada mais é que manter a atenção do leitor. Por isso vê-se a necessidade de se manter certa coesão, ou certa linha de raciocínio precisa. O modo ao qual buscamos isso pode diferir e muito quando que utilizamos os princípios. Num poema, como o próprio Hume aponta, pode ser usado o principio da similitude. No caso da história podemos notar que os fatos podem ocorrer em certo espaço em determinado tempo. Reutilizando o exemplo da história, Hume demonstra que esta possui várias cadeias causais. No caso do poema épico podemos ver a partir de detalhes descritos pelo o autor, a ideia que ele quer passar ao escrever a sua obra. Podemos imaginar que tais paixões, geraram tais atos, e por consequência geraram tais guerras. As imagens conseguem se formar com maior facilidade na mente humana. Isso só é possível porque a cadeia de eventos ao qual submetemos as ações que se relacionam entre si, são muito bem descritas, portanto a imaginação se torna viável. Ao passo que uma narrativa histórica, por exemplo, mesmo sendo fiel aos fatos se torna menos fácil o entendimento tendo em vista a pouca descrição dos fatos.

A primeira parte da seção IV, inicia com a distinção entre relações de ideias e questões de fato. Isso tudo permeia o universo da investigação humana. No primeiro temos tudo o que corresponde a relações matemáticas, onde tais afirmações estão corretas e podem ser comprovadas através de demonstração. Hume se vale do exemplo do triangulo retângulo, onde o quadrado da soma dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, expressando certa relação entre as partes expostas na demonstração. Já no caso da questão de fato, vemos que saberemos algo quando que da sua ocorrência, sendo totalmente diferente das relações de ideias. O exemplo exposto pelo autor é que só poderíamos ter certeza de que o sol vai nascer no dia seguinte no momento em que ele aparecer no céu. Interpreto que poderíamos pensar na possibilidade de ocorrência deste fato específico, porque no momento que olhamos para o céu poderíamos não encontrar sinal de nuvens e concluir que o sol nasceria no dia seguinte.

Mais adiante, o autor afirma que as questões de fato “parecem fundar-se na relação de causa e efeito”. Quando utilizamos o exemplo do sol, pensamos que a causa de seu surgimento nada mais é que a não existência de nuvens, logo seria essa a causa do surgimento do sol. Outro exemplo que Hume expõe em seu texto, é o do relógio encontrado em uma ilha deserta, em que o individuo que o encontra, acaba concluindo por inferência que outros homens estiveram nesse mesmo lugar, porque deve ter existido um agente que trouxe o objeto até aquela ilha e o deixou lá. Logo, a causa do relógio encontrar-se na ilha é a passagem de um homem pelo local. As relações estabelecidas nesses exemplos possuem certa característica em comum: o fato de o antecessor garantir o fato posterior.
Os exemplos acima nos causam a falsa impressão de que se conhecemos a causa, saberemos o que ocorrerá posteriormente. A ação do hábito nos faz crer que o conhecimento das coisas se dá de modo à priori. Isso implica afirmar que dadas as ações, inferimos que tal coisa é, porque conferiria o resultado. Tomemos como exemplo o caso do atropelamento. Dizemos que uma pessoa vai quebrar o braço se for atropelada, porém ela quebra a perna. A causa foi a mesma, porém o resultado é diferenciado. O mesmo ocorre com o exemplo das bolas de bilhar, pois no momento que impulsionamos a bola de bilhar em direção à outra, não quer dizer que a primeira acerte a segunda bola e marque um ponto. Ela pode desviar, sendo assim o efeito diferente daquele desejado pelo jogador. 

Notemos que agora podemos entender o que Hume afirma no começo do paragrafo 11 da seção quatro quando afirma que “todo o efeito é um acontecimento distinto de sua causa. Ele não poderia ser descoberto na causa, e a sua percepção e compreensão a priori deve ser inteiramente arbitrária”. Quando usei o exemplo do atropelamento, estava simplesmente usando a impressão que um indivíduo poderia ter quando outra pessoa fosse atropelada. O mesmo acontece com a impressão que uma pessoa teria da bola de bilhar. Assim sendo podemos notar que o conhecimento que ela tem, não passa de inferência sobre aquilo que poderá acontecer, dado acontecimento inicial.

O resultado disso tudo é que nos baseamos nas nossas experiências para inferir que outras coisas que possuem mesmo formato ou qualidades, irão desempenhar o mesmo papel. O Exemplo utilizado por Hume é o pão. Se comermos um pão qualquer e dizemos que este satisfez as necessidades nutricionais em dado momento, então tudo o que tiver a mesma consistência, o mesmo formato e as mesmas propriedades poderão satisfazer (de maneira análoga ao primeiro) as necessidades nutricionais em outro momento. Como poderíamos garantir isso? Na verdade não podemos responder, e nem é nisso que Hume vai se ativer neste momento. Mas aponta o seguinte raciocínio: “Constatei que tal objeto sempre esteve acompanhado de tal efeito e prevejo que outros objetos de aparência semelhante, estarão acompanhados de efeitos semelhantes”. E é com base na experiência de que o pão nutre que a conclusão de que outros pães irão nutrir, ocorre de igual forma, pois assimilamos suas propriedades e concluímos que possuem a mesma função. Não cogitamos, portanto, que o segundo pão possa estar envenenado, ou que não possua a mesma quantidade de nutrientes que o primeiro.

Ao afirmar isso, estamos admitindo a existência de propriedades não conhecidas através do raciocínio ou dos sentidos. Assim sendo, não temos como encontrar na similitude a garantia de que alguma coisa no presente tenha a mesma característica que outra no passado. Podemos concluir que a experiência se baseia numa relação de similitude, e que essa similitude nem sempre ocorre, logo não podemos dizer que tal coisa funcione do mesmo modo que outra no passado. Fica, portanto, impossível garantir por similitude a correspondência das coisas no passado e no futuro, por precisarmos desta para provarmos sua existência.