No inicio da seção três Hume assume a existência de um
principio que conecta os pensamentos e ideias, que seria causa do entendimento
das coisas, em que os pensamentos arbitrários seriam, ora excluídos – por não
possuírem ligação com o conteúdo da ideia –, ora aceitos desde que mostradas
sob quais circunstâncias tal ideia se contatou com o restante do pensamento (Poderíamos
até pensar que a mente humana agiria como filtro de conteúdos, porém essa
discussão não faz parte do pensamento do filósofo). Para justificar tal
asserção Hume exemplifica o fato expondo as questões do sonho e o do diálogo
entre pessoas. No caso do sonho temos uma situação ocorrendo em decorrência de
outra. Poderíamos até dizer que se trata de uma relação causal, onde teríamos
uma ocorrência de eventos interligados entre si ocasionando um evento. Também
poderíamos dizer que o nosso cérebro estaria relacionando coisas congruamente (poderíamos
nos remeter a ideia de causa e efeito?), onde os nossos cérebros associariam
coisas que possuem em comum certa utilidade, ou ocupam mesmo espaço, ou possuem
certa propriedade em comum, etc. O caso da conversa é um pouco mais delicado.
Podemos estar conversando normalmente com uma pessoa sobre política partidária,
e repentinamente surgir certa discussão sobre o melhor corte de cabelo. Mesmo
se isso acontecesse, notaríamos que há relação entre pensamentos. A pessoa que
inseriu o assunto no meio da conversa sobre política, poderia muito bem ter
comentado o quão lindos são os cabelos de uma mulher que participa ativamente
do ambiente, e os cabelos dela por serem espetaculares acabaram entrando no
meio da conversa. Pode ocorrer também que o assunto não se desvirtue, onde uma
das partes atuantes na conversa retome o assunto principal e não dê grade
atenção ao assunto adjacente.
Hume afirmava que essas conexões possuíam três princípios, a
saber: semelhança, contiguidade e causa e efeito. A semelhança exemplificava
com a similitude entre um retrato e a pessoa. Já a contiguidade, por sua vez,
utiliza como exemplo o cômodo da casa que remeteria ao ambiente casa. E por
último, como exemplo de causa e efeito, utiliza o machucado onde este seria a
causa da dor. A maneira pela qual Hume tenta garantir a usabilidade de tais
conceitos é a partir do uso de exemplos. Para tanto precisa mostrar que “essa
enumeração é completa”, ou seja, “que não há outro princípio de enumeração além
desse”. Por isso a utilização de exemplos se torna fundamental para que
consigamos generalizar a situação e podermos dizer que tais princípios são
legítimos e podem ser usados nos casos de conversa ou sonho como anteriormente
exposto.
Hume viu a necessidade de analisar esses efeitos nas paixões
e na imaginação. Utilizando o sentido de paixão afetar-se, notemos que de certa
forma as ações humanas se direcionam para algum fim (não é de vã vontade que o
homem age). Assim sendo, utiliza o caso da literatura. O intento de um escritor
quando redige sua obra, nada mais é que manter a atenção do leitor. Por isso
vê-se a necessidade de se manter certa coesão, ou certa linha de raciocínio
precisa. O modo ao qual buscamos isso pode diferir e muito quando que
utilizamos os princípios. Num poema, como o próprio Hume aponta, pode ser usado
o principio da similitude. No caso da história podemos notar que os fatos podem
ocorrer em certo espaço em determinado tempo. Reutilizando o exemplo da
história, Hume demonstra que esta possui várias cadeias causais. No caso do
poema épico podemos ver a partir de detalhes descritos pelo o autor, a ideia
que ele quer passar ao escrever a sua obra. Podemos imaginar que tais paixões,
geraram tais atos, e por consequência geraram tais guerras. As imagens
conseguem se formar com maior facilidade na mente humana. Isso só é possível
porque a cadeia de eventos ao qual submetemos as ações que se relacionam entre
si, são muito bem descritas, portanto a imaginação se torna viável. Ao passo
que uma narrativa histórica, por exemplo, mesmo sendo fiel aos fatos se torna
menos fácil o entendimento tendo em vista a pouca descrição dos fatos.
A primeira parte da seção IV, inicia com a distinção entre relações
de ideias e questões de fato. Isso tudo permeia o universo da investigação
humana. No primeiro temos tudo o que corresponde a relações matemáticas, onde
tais afirmações estão corretas e podem ser comprovadas através de demonstração.
Hume se vale do exemplo do triangulo retângulo, onde o quadrado da soma dos
catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, expressando certa relação entre as
partes expostas na demonstração. Já no caso da questão de fato, vemos que
saberemos algo quando que da sua ocorrência, sendo totalmente diferente das
relações de ideias. O exemplo exposto pelo autor é que só poderíamos ter
certeza de que o sol vai nascer no dia seguinte no momento em que ele aparecer
no céu. Interpreto que poderíamos pensar na possibilidade de ocorrência deste fato
específico, porque no momento que olhamos para o céu poderíamos não encontrar
sinal de nuvens e concluir que o sol nasceria no dia seguinte.
Mais adiante, o autor afirma que as questões de fato “parecem
fundar-se na relação de causa e efeito”. Quando utilizamos o exemplo do sol,
pensamos que a causa de seu surgimento nada mais é que a não existência de
nuvens, logo seria essa a causa do surgimento do sol. Outro exemplo que Hume expõe
em seu texto, é o do relógio encontrado em uma ilha deserta, em que o individuo
que o encontra, acaba concluindo por inferência que outros homens estiveram
nesse mesmo lugar, porque deve ter existido um agente que trouxe o objeto até
aquela ilha e o deixou lá. Logo, a causa do relógio encontrar-se na ilha é a
passagem de um homem pelo local. As relações estabelecidas nesses exemplos
possuem certa característica em comum: o fato de o antecessor garantir o fato
posterior.
Os exemplos acima nos causam a falsa impressão de que se
conhecemos a causa, saberemos o que ocorrerá posteriormente. A ação do hábito
nos faz crer que o conhecimento das coisas se dá de modo à priori. Isso implica
afirmar que dadas as ações, inferimos que tal coisa é, porque conferiria o
resultado. Tomemos como exemplo o caso do atropelamento. Dizemos que uma pessoa
vai quebrar o braço se for atropelada, porém ela quebra a perna. A causa foi a
mesma, porém o resultado é diferenciado. O mesmo ocorre com o exemplo das bolas
de bilhar, pois no momento que impulsionamos a bola de bilhar em direção à
outra, não quer dizer que a primeira acerte a segunda bola e marque um ponto. Ela
pode desviar, sendo assim o efeito diferente daquele desejado pelo jogador.
Notemos que agora podemos entender o que Hume afirma no
começo do paragrafo 11 da seção quatro quando afirma que “todo o efeito é um
acontecimento distinto de sua causa. Ele não poderia ser descoberto na causa, e
a sua percepção e compreensão a priori deve ser inteiramente arbitrária”. Quando
usei o exemplo do atropelamento, estava simplesmente usando a impressão que um
indivíduo poderia ter quando outra pessoa fosse atropelada. O mesmo acontece
com a impressão que uma pessoa teria da bola de bilhar. Assim sendo podemos
notar que o conhecimento que ela tem, não passa de inferência sobre aquilo que
poderá acontecer, dado acontecimento inicial.
O resultado disso tudo é que nos baseamos nas nossas
experiências para inferir que outras coisas que possuem mesmo formato ou
qualidades, irão desempenhar o mesmo papel. O Exemplo utilizado por Hume é o
pão. Se comermos um pão qualquer e dizemos que este satisfez as necessidades
nutricionais em dado momento, então tudo o que tiver a mesma consistência, o
mesmo formato e as mesmas propriedades poderão satisfazer (de maneira análoga ao
primeiro) as necessidades nutricionais em outro momento. Como poderíamos
garantir isso? Na verdade não podemos responder, e nem é nisso que Hume vai se ativer
neste momento. Mas aponta o seguinte raciocínio: “Constatei que tal objeto
sempre esteve acompanhado de tal efeito e prevejo que outros objetos de
aparência semelhante, estarão acompanhados de efeitos semelhantes”. E é com
base na experiência de que o pão nutre que a conclusão de que outros pães irão nutrir,
ocorre de igual forma, pois assimilamos suas propriedades e concluímos que
possuem a mesma função. Não cogitamos, portanto, que o segundo pão possa estar
envenenado, ou que não possua a mesma quantidade de nutrientes que o primeiro.
Ao afirmar isso, estamos admitindo a existência de
propriedades não conhecidas através do raciocínio ou dos sentidos. Assim sendo,
não temos como encontrar na similitude a garantia de que alguma coisa no
presente tenha a mesma característica que outra no passado. Podemos concluir
que a experiência se baseia numa relação de similitude, e que essa similitude
nem sempre ocorre, logo não podemos dizer que tal coisa funcione do mesmo modo
que outra no passado. Fica, portanto, impossível garantir por similitude a
correspondência das coisas no passado e no futuro, por precisarmos desta para
provarmos sua existência.